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[Conto] Predestinados ao @mor

quarta-feira, 29 de agosto de 2012



Ano passado, mais ou menos nessa mesma época, escrevi um conto numa espécie de brincadeira com títulos de livros. Revendo meus escrito, encontrei esse texto - que já foi postado aqui no blog - e resolvi melhorá-lo para mostrá-lo a vocês. Sem mais delongas, confiram esse divertido conto.

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Predestinados ao @amor


Eu morava na vila do sol calado, e ele, nO Morro dos Ventos Uivantes. Ele tinha um coração de pedra, e eu, um Coração de Tinta. Um Dia, aconteceu O Encontro. Eu estava no ônibus, Aprisionada em pensamentos bobos, quando ele, Cheio de Charme, resolveu dividir os fones de ouvido comigo. Em Chamas, abri um sorriso e o rosto dele se encheu de Esperança. Então, pensei: de uma hora para outra, Tudo Pode Mudar.  Afinal de contas, era Sábado à Noite, podia rolar uma dose de Desejo.  Mas O Amor nos Tempos do Blog pode ser complicado... Após ouvirmos A Última Música, ele rabiscou um link na palma da minha mão, e eu soube: seria Para Sempre.

Alguns dias depois, ele me convidou para ir até A Casa Das Orquídeas e, naquele cenário mágico, fui Beijada por um Anjo. A partir de então, resolvi ficar Bem Mais Perto dele e entregar O Melhor de Mim. Isso o deixou contente e ele gritou aos quatro ventos que era Um Homem de Sorte. Acaso estaríamos Apaixonados? No fim de semana seguinte, fomos até O Lago dos Sonhos e ele me fez Uma Proposta Irrecusável. Quem é que não gosta de receber Presentes da Vida? Definitivamente, aquele não era um Amante Sombrio. Estilhaça-me, pensei. Ah sim, aquilo não passava de um Delírio... Ou não?

Eu era a Escolhida, a Destinada, a Marcada, e não a Traída. Por isso, me senti como uma Amante Libertada. Nem pensei em pedir Conselho de Amiga. Aceitei a proposta, só pra ficar Do Seu Lado, e, sob A Estrela Mais Brilhante do Céu, aconteceu O Casamento.

Logo as coisas mudaram de figura... Eu queria viajar na lua de mel, mas ele só pensava em Comer, Rezar, Amar. Quando veio o Amanhecer, viajamos, mas ele me magoara tanto que Nas Margens do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei. Acaso aquilo resultaria nO Diário de Uma Paixão? Eu havia feito A Escolha, e ele, A Promessa. Pedimos perdão um ao outro e aconteceu O Milagre. Sem dúvida, era Paixão. Precisaríamos de Um Lugar para Ficar.

Depois da viagem, adotamos por lazer o futebol, mas eu sempre queria ficar Nas Arquibancadas, e ele, nas cadeiras cativas. Com o passar do tempo, descobrimos não saber nada sobre A Arte da Imperfeição. Mesmo assim, ele insistia em repetir que Amar Pode Dar Certo e que O Sucesso é Ser Feliz. Aí, vieram Os Gêmeos. Desejei um casalzinho, Ana e Pedro; e ele, dois meninos, Esaú e Jacó. Foi quando as discrepâncias aumentaram. Ele pedia para ser chamado de Querido Jonh, mas eu preferia chamá-lo de Harry Potter; eu queria estudar na Le Cordon Bleu, e ele insistia na Escola dos Sabores; ele planejava passar Férias nA Cabana, e eu, Mil Dias em Veneza...

Caímos na rotina e logo ficamos sem Um Porto Seguro, aquilo parecia O Começo do Adeus. Por isso, sugeri que começássemos a ler Liberte Meu Coração, mas ele preferiu ir ao teatro para assistir a Sonho de Uma Noite de Verão.

Certo dia, na livraria, ele se esqueceu de passar no caixa, e eu fiquei conhecida como A Menina que Roubava Livros. Irritada, declarei que precisávamos ter os Temperamentos Transformados, e ele revidou dizendo que nós éramos Os Implacáveis. Estou com Sorte, ironizei, Tem Alguém Aí? Ele ficou em Silêncio. Ótimo, continuei, tudo de que eu preciso nesse instante é um Sussurro de paz. Então, para me acalmar, ele comprou Noites de Tormentas, só que eu estava a fim de Um Amor para Recordar.

Começamos a brigar feio. Eu disse: Ame o Que é Seu; e ele: Cante para eu Dormir. Como o aborrecimento cresceu, ele berrou que ia até A Cartomante, e eu desejei dar A Volta Ao Mundo em 80 dias. Sem dúvida, aquela briga idiota era um Ladrão de Almas! Até quando ficaríamos naquele “Ela disse, Ele disse”? Por isso, Fala Sério!, resolvi dar A Outra Face, mas ele ironizou um seco “Quem é Você, Alasca?”, e depois perguntou se eu ainda me lembrava Como Ser Solteira. Com lágrimas nos olhos, recordei de quando nos conhecemos, aquele foi mesmo Um Ano Inesquecível...

Emocionada, ciciei que éramos A Mão e a Luva, e ele, enfim, admitiu que já estávamos muito Interligados. Isso é Sorte ou Azar?, perguntei. Sou Louco Por Você, me respondeu. Pronto, bastaram essas palavras para eu perceber que O Céu Está Em Todo Lugar e chamá-lo de meu Pequeno Príncipe. Exercendo O Domínio de homem da relação, ele me beijou, depois disse que tínhamos mesmo Uma Estranha Simetria.

E esse foi O Reverso da Medalha. Afinal de contas, qual o problema de eu querer ler biografias, e ele, O Diário de um mago? Estava claro: ele era apenas um menino, e eu, uma Senhora. E Se Fosse Verdade... Terminaríamos Fazendo Meu Filme. Aquelas brigas foram apenas os nossos Cinquenta Tons de Cinza. Nós éramos mesmo Amigos Inimigos, só que ele tinha seus Encantos, e isso me dava Asas...

Continuaremos a escrever Cartas de Amor com finais do tipo PS. Eu Te Amo. Sim, eu sei, Dizem Por Aí que isso é plágio do livro, mas A Culpa É Das Estrelas. Então, por favor, Não Conte a Ninguém.



Contei 106 títulos de livros, com os dois do título do conto. Será?

[Conto] Aprenda a chamar a polícia, Luís Fernando Veríssimo

sexta-feira, 11 de maio de 2012


Apesar da crítica do texto, sábado ainda é dia de rir e se divertir. 
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Aprenda a chamar a polícia

Eu tenho o sono muito leve, e numa noite dessas notei que havia alguém andando sorrateiramente no quintal de casa.
Levantei em silêncio e fiquei acompanhando os leves ruídos que vinham lá de fora, até ver uma silhueta passando pela janela do banheiro.
Como minha casa era muito segura, com  grades nas janelas e trancas internas nas portas, não fiquei muito preocupado, mas era claro que eu não ia deixar um ladrão ali,espiando tranqüilamente.
Liguei baixinho para a polícia, informei a situação e o meu endereço.  Perguntaram- me se o ladrão estava armado ou se já estava no interior da casa. Esclareci que não e disseram-me que não havia nenhuma viatura por perto para ajudar, mas que iriam mandar alguém assim que fosse possível.
Um minuto depois liguei de novo e disse com a voz calma:
- Oi, eu liguei há pouco porque tinha alguém no meu quintal. Não precisa mais ter pressa. Eu já matei o ladrão com um tiro da escopeta calibre 12, que tenho guardada em casa para estas situações. O tiro fez um estrago danado no cara!
Passados menos de três minutos, estavam na minha rua cinco carros da polícia, um helicóptero, uma unidade do resgate, uma equipe de TV e a turma dos direitos humanos, que não perderiam isso por nada neste mundo.
Eles prenderam o ladrão em flagrante, que ficava olhando tudo com cara de assombrado.
Talvez ele estivesse pensando que aquela era a casa do Comandante da Polícia.
No meio do tumulto, um tenente se aproximou de mim e disse:
- Pensei que tivesse dito que tinha matado o ladrão.
Eu respondi:
- Pensei que tivesse dito que não havia NENHUMA viatura disponível.

(Luis Fernando Veríssimo)

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[Microconto] Natinho

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Hoje é quarta-feira de cinzas e, embora o carnaval pra mim esteja sendo super divertido - assisti a uns mil filminhos maravilhosos! -, resolvi tirar um tempinho pra publicar o texto de um colega do fórum para novos escritores Escreva Seu Livro. Lá, temos um tópico onde postamos textos da nossa infância e adolescência. Eu gostei bastante desse microconto da autoria de Lucas (Lkz). 

Desejo a todos uma boa leitura!

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Natinho 


Quando papai viu Tuchita se enfeitando, se emperiquitando toda, perguntou desconfiado e sorridente:

- Você tá de paquera?

Estava esperando um não escandalizado ou silêncio, que também é resposta. Mas Tuchita não se acanhou:

- Tou sim pai.

- E quantos anos tem esse folgado?

- Cinco.

- Tudo isso? - brincou o pai. - Não está muito velho pra você?

- Tá não, pai. Eu também vou fazer cinco. A mão toda. Inteira. Empatou.

- E pode-se saber quem é esse príncipe?

- Não é príncipe, não. É o Natinho.

- Aquele sardento? - provocou ele.

- Não é sardento, não, pai. É do sol, sabia?

- Pode ser até da lua. Mas que ele é sardento, ah, isso é. E ele já tem emprego ou pensa em viver à minha custa?

- Tem emprego - disse, convencida, a pequena.

- Emprego de quê? - duvidou o pai.

- Emprego de filho.


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[Brincadeira] Como Somos Diferentes...

quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Queridos amigos e leitores, boa noite! Peço desculpa pela demora nas postagens. Devido ao nascimento de um dente, tive problemas de garganta, nariz e ouvido - sem falar num baita resfriado -, o que me deixou com o raciocínio meio prejudicado ao longo dessa  semana. Mas, enfim, mesmo com os pensamentos meio lentos, me obriguei a escrever para o blog hoje. E sabe que fiquei super satisfeita com o resultado? Faz um tempinho, pensei em criar uma brincadeira com títulos de livros, só que não saía nada... Então, quando eu menos esperava, saiu. Espero que curtam e se identifiquem com a pequena e divertida historinha que acabei de montar.


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Como somos diferentes...






Eu morava na vila do sol calado, e ele, n'O Morro dos Ventos Uivantes.

Ele tinha um coração de pedra, e eu, um Coração de Tinta.

No primeiro encontro, eu quis ouvir pop rock, e ele, A Última Música.

Eu pensei em visitar O Lago dos Sonhos no fim de semana, e ele, em ficar n’A Cabana.

Foi quando ele me fez Uma Proposta Irrecusável, e eu só queria ser pedida em casamento.

Eu planejei viajar na lua de mel, e ele, Comer, Rezar, Amar.

Então, ele me magoou, por isso Nas Margens do rio Piedra eu Sentei e Chorei.

Depois do pedido de perdão, fomos ao futebol, mas eu quis ficar Nas Arquibancadas, e ele, nas cadeiras cativas.

Mesmo assim, ele sempre repetia que Amar Pode Dar Certo, e eu que O Sucesso é Ser Feliz.

Daí, tivemos que escolher o nome dos gêmeos. Eu queria Ana e Pedro, e ele, Esaú e Jacó.

Em casa, ele sempre pedia para ser chamado de Querido Jonh, mas eu achava que ele tinha cara de Harry Potter.

Depois que os meninos nasceram, eu pensei em ir para a Le Cordon Bleu; e ele, para a Escola dos Sabores.

No ano seguinte, ele planejava passar férias nos EUA, e eu, Mil Dias em Veneza...

Por isso, sugeri que começássemos a ler Liberte Meu Coração, mas ele preferiu ir ao teatro para assistir Sonho de Uma Noite de Verão.

Um dia, na livraria, ele se esqueceu de passar no caixa, e eu fiquei conhecida como A Menina que Roubava Livros.

Então, eu achei que precisávamos ter os Temperamentos Transformados, e ele, que éramos Os Implacáveis.

Para me acalmar, ele comprou Noites de Tormentas, só que eu tava a fim de Um Amor para Recordar.

Começamos a brigar feio. Eu disse: Ame o Que é Seu; e ele, Cante para eu Dormir.

Como o aborrecimento cresceu, ele falou que ia até A Cartomante, e eu quis dar A Volta Ao Mundo em 80 dias.

Ficamos nesse Ela disse, Ele disse. Por isso, Fala Sério!, eu resolvi dar A Outra Face, mas ele ironizou um seco: Quem é Você, Alaska?

E continuou, perguntando se eu ainda me lembrava Como Ser Solteira, e eu, A Moreninha, respondi que éramos A Mão e a Luva.

Então, ele admitiu que já estávamos muito Interligados, e eu sussurrei: isso é Sorte ou Azar?

Daí, eu o chamei de O Pequeno Príncipe, e ele, exercendo O Domínio de homem da relação, me beijou e disse que tínhamos mesmo Uma Estranha Simetria.

E esse foi O Reverso da Medalha. Afinal, qual o problema de eu querer ler biografias, e ele, O Diário de um mago?

Estava claro: ele era apenas um menino, e eu, uma Senhora.

E Se Fosse Verdade... Terminaríamos Fazendo Meu Filme. Mas, por favor, Não Conte a Ninguém.


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[Conto] Cão Velho

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Olá, queridos amigos e leitores! Faz dois dias que recebi um e-mail superinteressante. Bem, não gosto de colocar conteúdos de circulação pública no blog, especialmente vindos por e-mail, mas esse veio de Portugal, então deve ter circulado menos por aqui. Claro que eu o revisei e adaptei. Espero que gostem, porque eu gostei muito.

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Cão Velho


Certa senhora foi para um safári na África e levou o seu velho vira-latas com ela.

Um dia, caçando borboletas, o velho cão, de repente, deu-se conta que estava perdido.

Vagueando a esmo, procurando o caminho de volta, o velho cão percebeu que um jovem leopardo o vira e caminhava em sua direção, com a firme intenção de conseguir um bom e farto almoço.

O velho cão pensou depressa (pois os velhos pensam depressa): "Oh céus, estou mesmo enrascado!". Mas, olhando em volta, viu alguns ossos espalhados no chão muito próximos de si. Então, em vez de se apavorar mais ainda, ajeitou-se perto de um dos ossos e começou a roê-lo, virando as costas ao predador, fingindo que não o tinha visto. Quando o leopardo estava a ponto de dar o salto a fim de abocanhá-lo, o velho cão exclamou bem alto:

- Nossa, este leopardo estava mesmo delicioso! Será que há outros por aí?

Ouvindo isso, o jovem leopardo, com um terrível arrepio na espinha, suspendeu o seu ataque já quase começado, esgueirou-se na direção das árvores e pensou: "Caramba! Essa foi por pouco... Quase que o velho vira-latas me apanhava!".


*****

Numa árvore ali perto, um macaco assistia toda a cena e logo imaginou como fazer bom uso do que vira. Em troca de proteção, informaria ao predador que o cão não havia comido leopardo nenhum.

E assim ele foi, rápido, em direção ao leopardo. Mas o velho cão o viu a correr no rastro do predador em grande velocidade e pensou: "Aí tem...".

Assim que alcançou o felino, o macaco cochichou o acontecido em seu ouvido e lhe propôs um acordo. Por sua vez, o leopardo, furioso por ter sido feito de trouxa, disse:

- Aí, macaco, suba nas minhas costas e você verá o que vai acontecer com aquele cão ousado.


*****


Agora, o velho cão via um leopardo furioso, vindo em sua direção, com um macaco nas costas e, novamente, pensou rápido: "E agora, o que é que eu vou fazer?". Pensou em correr, mas desistiu (pois sabia que as suas pernas cansadas não o levariam longe...), então, apenas sentou-se, mais uma vez de costas para os agressores, fazendo de conta que não os via... Quando estavam suficientemente perto para ouvi-lo, o velho cão disse:

- Por onde será que anda o safado daquele macaco? Já estou morrendo de fome! Ele disse que já, já traria outro leopardo para mim, mas até agora não voltou...


Moral da história:

Não se meta com um Cão Velho... Idade e habilidade sobrepõem-se à juventude e à intriga. A sabedoria só vem com a idade e a experiência.


[Conto] Cada um dá o que tem

quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Olá, amigos e leitores! Ontem eu ouvi uma ilustração e achei que seria bom trazer uma versão dela para cá. Baseado no texto de Josué Gonçalves:


Cada um dá o que tem






     Duas fazendeiras moravam próximas uma da outra, mas não eram amigas. Uma era evangélica, a outra, além de não ser, tinha aversão a cristãos.

     Um dia, com o coração cheio de ódio, a mulher que não gostava de cristãos resolveu insultar a piedosa vizinha, mandando-lhe como presente uma cesta cheia de estrume, algo com um cheiro insuportável.

     Quando aquele presente chegou às mãos da vizinha generosa, ela chamou sua empregada e disse:

     - Vá até o jardim, colha as mais belas e perfumadas flores, ponha numa cesta e a enfeite com um laço bonito.

     Tendo ficado pronto o presente, a mulher escreveu um bilhete, o colocou junto às flores e pediu que a empregada o levasse em seu nome e entregasse à vizinha inimiga.

     Ao receber o presente, a vizinha iracunda sentiu o agradável exalar do perfume das flores; aquilo a deixou encantada. Contudo, ao abrir o bilhete, leu a seguinte mensagem: “Cada um dá o que tem”.

[Conto] Noite Insone

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Olá, queridos amigos e leitores, como vão todos? Estive meio ausente, pois fiz uma pequena viagem a passeio e terminei ficando sem net. Como já sabem, um dia longe das redes sociais significa muita coisa acumulada. Mas bem, cá estou organizando tudo aos pouquinhos. 

Hoje, resolvi postar esse conto que escrevi há quase um ano. Ele já esteve aqui no blog, mas os comentários foram tão bons, que o retirei para tentar participar de um concurso literário. Por ironia, acabei me esquecendo do concurso - sei, é cômico... Enfim, muito obrigada pela visita! E boa leitura.

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Noite insone



Eduardo acordou. Estava escuro. Levantou-se. Andou descalço. Sentiu frio. Acendeu luzes. Procurou sandálias. Nada encontrou. Chateou-se. Falou alto. Ninguém respondeu. Ficou triste. Agasalhou-se. Cantou canções. Sentiu calor. Despiu-se. Bebeu água. Quebrou copos. Arrependeu-se. Ficou angustiado. Derramou lágrimas. Esbravejou consigo. Ficou nervoso. Andou atônito. Estapeou-se. Chutou paredes. Sentiu dores. Tomou calmante. Esperou horas. Nada mudou. Leu jornal. Beliscou-se. Continuou igual. Sentou-se. Assistiu TV. Perdeu tempo. Roeu unhas. Permaneceu irritado. Faltou energia. Sentiu raiva. Desesperou-se. Quis telefonar. Pensou melhor. Respirou fundo. Terminou desistindo. Procurou fósforos. Acendeu velas. Iluminou tudo. Sentiu solidão. Resolveu brincar. Fez mímica. Distraiu-se. Deu risada. Viu claridade. Estava amanhecendo. Desejou dormir. Apagou velas. Pegou cobertas. Deitou-se. Pensou besteira. Reclamou sozinho. Fez orações. Sentiu paz. Ficou relaxado. Adormeceu tranquilo.

[Conto] O rascunho de um sonho

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Olá, pessoas! Como vão todos? Espero que ótimos, como também estou. Bom, estive pensando numas novidades para o blog. Se tudo der certo, contarei para vocês na minha próxima postagem. Enquanto isso, ficaremos com mais um conto. Primeiro, quero dizer que essa história é meio estranha, entendam, partiu de um sonho, e sonhos nem sempre fazem sentido, né? Faz cerca de um ano que isso me ocorreu. Acordei e tentei escrever a história, mas, sabe quando uma coisa fica travada? Então, simplesmente, travei. Mas como há tempo para tudo, minutos atrás, pensando em algo para postar, comecei a remexer em meus arquivos e... sabem o que eu encontrei? O rascunho de um sonho! Certo, estou alongado demais. Por isso, sem maiores berebedês e barabadás...

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o rAsCuNhO dE uM sOnHo



Eram por volta das 14h quando Maria Clara atravessou a rua e sentiu que o nervosismo a dominava. Chegou ofegante, como era provável, à portaria da rádio FM Só Sucesso, disse o nome completo e respirou fundo... Depois de tanto tempo sonhando, finalmente teria o primeiro contato com o grande amor da sua vida. Friozinho na barriga e autocontrole para não arrancar o esmalte vermelho escarlate das unhas com os dentes caninos. Por sorte, menos de dois minutos depois, uma moça simpática, quase sorridente, aparecia para conduzi-la à sala de espera.

Lá estavam outras cinco garotas histéricas, as demais vencedoras da promoção “Chá da tarde com seu ídolo”. A presença das excêntricas tietes, suas prováveis rivais, e a ansiedade angustiante pelo encontro deixaram Maria Clara com o nervosismo ainda mais aflorado. Tanto que, após intermináveis vinte minutos de uma torturante espera, as mãos dela, além de ansiosas por mergulharem em sua boca, estavam trêmulas e gélidas.

As outras moças, embora também parecessem aflitas, em pouco tempo, como que relaxadas, começaram a tirar fotografias e tagarelar. Logo Maria Clara estaria completamente envolvida nesse clima de frenesi.

Passou-se a primeira hora de estranhas confidências com garotas completamente desconhecidas, então ela embarcou numa incontrolável sensação de euforia. Acaso o carro preto de vidros fumê não trazia o grande amor de sua vida? Gritarias para cá, lágrimas para lá e uma terrível decepção. Não, não era ele, e elas não podiam gritar ali daquele jeito. Ah por favor! Era o grande amor de suas vidas, como não gritariam? Sim, poderiam até mesmo escabelar-se, mas apenas quando fossem conduzidas à sala reservada. Tudo bem, tudo bem... Água mineral gelada e profundos suspirar, os ânimos se abrandaram, e lá se foram mais três horas da agora massacrante espera... Maria Clara estava tensa e pálida de tanta aflição. Acaso seu grande ídolo não viria? Corria o boato que não. Se aquilo era verdade, nenhuma delas sabia, mas enfim, por volta das 19h, cerca de seis horas após a chegada da primeira tiete, finalmente alguém lhes deu um sincero parecer. Devido a um grande atraso no voo, o cantor teria sido obrigado a cancelar o encontro com as fãs.

Ouvindo a notícia, todas, muito nervosas, começaram a se lamentar e a reclamar, deixando a funcionária portadora da notícia totalmente sem saber o que dizer. Minutos depois, quase sendo incentivadas ao caminho da saída, como um verdadeiro cala boca, cada uma delas recebeu um pôster artificialmente autografado, um CD e - pelo menos isso! - um convite para assistir ao show no camarote da rádio.

Algumas garotas choraram, outras se indignaram, Maria Clara apenas ficou decepcionada. Embora aquele prêmio de consolação fosse o sonho de muitas fãs, para ela não passava de uma vergonha. Mais de cinco horas esperado naquela sala fria, e quanta consideração da parte dele... Já não sabia se ainda queria vê-lo, mesmo que de longe, ou se valeria a pena ir ao show. De qualquer forma, teria que voltar para casa com aquela frustração e contar a todos que seu ídolo não passava de um grande mal-educado. Respirou fundo, enquanto as outras já cruzavam a porta da sala de espera rumo à saída. Talvez fosse melhor se ela nunca tivesse ganhado aquela porcaria de promoção.


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Continua... Talvez... Se vocês quiserem...


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[Conto] Paulo, a Noite e o Escuro - última parte

terça-feira, 30 de novembro de 2010


Salut, queridos! Demorou um pouquinho, mas eu trouxe a segunda e última parte do conto. Agradeço pela presença de vocês aqui no blog. 


Boa leitura!


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Certa ocasião, numa dessas vagas madrugadas, Paulo descobriu algo maravilhoso. Cansado de enfrentar tantas doenças, desejou com profundidade deixar de ser enfermo. Ele repetiu seu desejo por três vezes, quase sussurrando, e logo uma força estranha invadiu o seu corpo, deixando-o revigorado, tornando-o um homem novo. O jovem ficara apavorado, aquilo seria impossível para alguém que possuía uma saúde tão frágil. Mas sua mente era mesmo teimosa, ela o obrigava a tentar de novo. O rapaz fez pensamento forte e repetiu outro desejo por três vezes, como antes, quase sussurrando. No dia seguinte, o que pedira estava realizado. Teria ele um dom, um poder especial, talvez causado pelas noites em claro e pelos dias amargos de cansaço? 

Paulo guardou aquele segredo e passou a usar seu dom de desejar em favor de todos. Deu saúde aos doentes, felicidade aos tristes, força aos fracos, riqueza aos pobres, simplicidade aos orgulhosos, sensibilidade aos desumanos, compaixão aos impiedosos... Ele tentava de tudo, sempre obtinha êxito. Nada de mau lhe atingia, não mais ficava doente, acontecia apenas o que profundamente desejava. No entanto, algo ainda o entristecia. Paulo tinha um poder incrível, conseguia alcançar tudo através dos seus profundos pedidos, exceto uma coisa...

Por mais que pedisse, Paulo não podia ter aquilo: dormir à noite, justo o que ele mais almejava. Foi quando o jovem percebeu que estava na hora de esquecer sua antiga busca, anular seu principal desejo, para sustentar o dom recebido e ajudar, com ele, ao mundo.

Mesmo decepcionado, ele aceitou o desafio e, como fizera a vida toda, continuou fingindo.


Meses depois, o então reprimido e responsável vespertino já não era alvo de chacotas. Paulo ainda não dormia, permanecia trabalhando durante o dia e vagando à madrugada; mas, agora, ele usava os poderes recebidos para renovar as próprias forças. Tornara-se um funcionário exemplar, conforme o chefe afirmava, o melhor dentre todos na empresa. Finalmente fora aceito, valorizado e reconhecido. Era um homem aclamado por todos, requisitado, cobiçado. O que mais Paulo poderia desejar? Sim, ele poderia, e desejou, e alcançou.


Em pouco tempo, o jovem pacato tornou-se o homem mais rico e próspero do mundo. Ele casou-se com a miss universo daquele ano e teve os filhos mais inteligentes, saudáveis, bonitos e carinhosos da face da terra. Sua vida ficara perfeita, do modo como nem mesmo o mais sábio dos seres humanos ousaria imaginar. Porém, Paulo se envolveu tanto com as coisas palpáveis da vida, que terminou se esquecendo de algo extremamente importante.


Um dia, o homem mais poderoso do mundo acordou e percebeu que não podia usar seu precioso dom, descobriu que se esquecera de como fazia para desejar.


Aos poucos, o poder de Paulo começou a decrescer, e diminuiu até escassear. Perdendo-se dos seus desejos, voltou a ser o ele antigo; ficou fraco, doente, inseguro. Estava sofrendo outra vez, sentindo o cansaço extremo que, por causa da idade, já não conseguia disfarçar. As marcas das noites não dormidas e dos dias de trabalho pesado, sem a ajuda renovadora dos poderes, estavam claras em sua face, estampadas.


Um dia, Paulo chegou exausto em casa e notou que murmúrios suspeitos vinham da cozinha. Com passos meio débeis, ele caminhou até lá. Era a esposa e os filhos que conversavam. O homem ficou contente, com o coração acelerado. Ele tinha bons motivos para sentir-se daquele jeito, seu aniversário estava próximo; todos os anos, a doce miss universo encontrava um jeito novo de comemorar o tal dia glorioso.


O dono do mundo aproximou o ouvido da porta, a fim de escutar melhor, e ficou decepcionado. Eles não combinavam como seria a sua festa, discutiam sobre outro assunto. As palavras da família, embora sussurradas, eram exatas; eles suspendiam uma questão há muito esquecida: a esquisitice de Paulo.


Entre tramas e protestos, por fim, chegaram a um senso comum, decidiram interditá-lo. Decretariam que Paulo estava louco. Afinal, que lógica havia em um homem daquela idade e extremo sucesso, nunca dormir à noite, padecendo de medo do escuro?


Paulo sentiu-se como na infância, quando era levado pelos pais de um lado para o outro. Camuflara as suas diferenças a vida inteira, mas sentia que já não tinha forças para fazê-lo. Sabia que, caso não interviesse à ação da família, terminaria novamente ridicularizado. Não! Por tudo que havia sofrido, não poderia aceitar aquilo.


Agoniado, ele mergulhou em pensamentos. Sua mente, mesmo cansada, continuava insistente, teimosa. Ela dizia que talvez houvesse um modo de recuperar o dom e tornar a esconder o antigo problema que tanto o afetava.


Esperançoso, o homem correu ao quarto, trancou-se e ficou sentado na cama. Fez tudo que podia, esforçou-se ao máximo para recuperar a fórmula perfeita do dom de desejar. Estava difícil... Por mais que ele tentasse relutar, seus sentimentos desviavam-no do foco, atiravam-no à incessante ideia de adquirir uma nova estratégia para voltar a ser aceito.


Desse modo, horas se passaram e Paulo não conseguiu recordar aquele grande segredo. O triste homem respirou fundo, sabia que não tinha outro jeito. Nascera fadado àquele fim, faria o que era preciso.


Paulo pegou canivete, papel e caneta, sentou-se à escrivaninha e escreveu o seu bilhete.


Com a arma em punho, o homem mais rico do mundo, contemplou-se no espelho pela última vez. Estava decidido, jamais se permitiria voltar a ser escarnecido. Um gelo tomou conta do seu corpo, ele sentiu raiva por tudo que havia enfrentado. Paulo respirou fundo, ergueu o canivete e cegou os olhos. Nunca mais veria a luz do sol, ficaria para sempre na escuridão. Talvez assim, pudesse enganar-se, fingir que o dia era a noite e reconquistar sua dignidade, vivendo igual a todo mundo.


Apenas três dias após o ocorrido, o bilhete fora encontrado. Surpreendentemente, a inscrição dizia: sou igual a todos e não tenho medo do escuro. 

Paulo, a Noite e o Escuro (Parte I)

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Olá, pessoal. Ça va? Estive pensando esses dias, faz tempo que não posto um conto aqui. Dei uma vasculhada na minha papelada digital e encontrei um texto interessante, é a história de um vespertino muito especial chamado Paulo - se você ainda não sabe o que é ser vespertino, clique AQUI e leia um artigo escrito por Lílian Ferreira, ou clique AQUI e leia uma crônica que escrevi sobre o assunto. Como o conto tem 4.502 caracteres (com espaço), preferi dividí-lo em duas partes. 

Desejo a todos uma excelente leitura!


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Paulo era diferente, um jovem introspectivo acostumado a ouvir e suportar calado as diversas críticas que recebia. Suas diferenças começaram a ser notadas ainda nos seus primeiros dias de vida. Enquanto todos dormiam, o menino chorava; porém, quando acordavam, ele dormia. Pensaram que fosse birra de criança, pura mania, ou medo do escuro. Mas o tempo passava, Paulo crescia, e aquilo não terminava, persistia.

Os pais dele ficaram nervosos, levaram-no a vários médicos, e nada do que lhes mandavam fazer trazia bons resultados. Preconceito à parte, aos quinze anos, enfim, acompanharam-no ao psiquiatra. Ótima consulta. Agora sabiam que o filho apenas tinha um trauma de infância. Certamente, dizia o doutor, Paulo não dorme à noite pelo terror que a escuridão lhe causa.

O menino ficou furioso. Afinal, o que seria dele se aquilo nunca passasse? E se todas as pessoas que ele conhecia resolvessem apelidá-lo de medroso? Paulo manteve-se calado. Porque viu esperança nos olhos dos pais, respirou profundamente e engoliu a raiva.

Seus pais saíram felizes do consultório, acreditaram cegamente no sucesso dos remédios tarja preta. Para eles, o especialista bem sabia o que afirmava. Ainda havia chances do filho se tornar um garoto normal, indo à escola, arrumando amigos, fazendo parte de grupos de estudo, conquistando namoradas... Estavam confiantes, pensando que logo se livrariam daquele extenso e constrangedor problema. Sabiam que Paulo era um menino bom, obediente e disciplinado. Ele tomaria os comprimidos na hora certa, se esforçaria, seguiria à risca as ordens do médico. E assim foi... Contudo, mesmo sob o forte efeito dos medicamentos, as diferenças prometidas pelo psiquiatra jamais se manifestaram.

Após incontáveis meses do tratamento inútil, os pais perceberam que Paulo não tinha jeito. Eles entraram em acordo, decidiram aceitar a condição do filho e ignorar para sempre aquele assunto. O menino não se conformou, ficou extremamente irritado. Ele não podia desistir, queria provar que não tinha medo de nada, que não era diferente dos outros.

Sem mudanças e frustrado, Paulo virou alvo de constante chacota. Tachado de medroso por onde passava, o pacato garoto contrariava a lógica e nunca revidava. Mesmo sob forte aborrecimento, permanecia inerte, lutava calado contra seus conflitos internos, sofria quieto os preconceitos.

Preso interiormente, o menino tornou-se um rapaz receoso. Paulo não tinha medo, como diziam as pessoas e o psiquiatra, do escuro; tinha medo dos outros. Queria ser ele mesmo, arrumar um bom trabalho noturno, ter sua chance, reconhecimento, respeito. Porém, daquele jeito esquisito, parecia impossível que alguém lhe desse crédito. 

Por fim, aos vinte anos, conseguiu o primeiro emprego. Não era um trabalho excelente, mas servia para aproximá-lo da realidade alheia com a qual tanto sonhava.

Paulo trabalhava o dia inteiro e, como à noite não dormia, nunca descansava. Aquilo era uma incógnita para todos, nem mesmo ele conseguia explicar a estranha relação que tinha com as horas. Achava-se culpado por ser daquele jeito e castigava-se, imaginando-se diferente do que era, sendo aceito, como todos.

O tempo corria, e ele, com muito esforço, mantinha-se firme naquela rotina pesada. Virara um adulto pálido, de olheiras profundas e olhos quebrados que, à tarde, por qualquer descuido, dormitavam. Como se não bastasse tanto esforço, Paulo precisava disfarçar os sinais que seu corpo dava de uma iminente desgraça. Tivera incontáveis disenterias, todas as gripes da moda, rinite, tendinite, conjuntivite e otite. Aos vinte cinco anos, sentia-se derrotado. Queria desistir do emprego, abandonar a ideia de provar que podia se tornar igual aos outros; porém, sua mente insistia, relutava.

Certa ocasião, numa dessas vagas madrugadas, Paulo descobriu algo maravilhoso. Cansado de enfrentar tantas doenças, desejou com profundidade deixar de ser enfermo. Ele repetiu seu desejo por três vezes, quase sussurrando, e logo uma força estranha invadiu o seu corpo, deixando-o revigorado, tornando-o um homem novo. O jovem ficara apavorado, aquilo seria impossível para alguém que possuía uma saúde tão frágil. Mas sua mente era mesmo teimosa, ela o obrigava a tentar de novo. O rapaz fez pensamento forte e repetiu outro desejo por três vezes, como antes, quase sussurrando. No dia seguinte, o que pedira estava realizado. Teria ele um dom, um poder especial, talvez causado pelas noites em claro e pelos dias amargos de cansaço?

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Porque comer é psicológico

quarta-feira, 29 de setembro de 2010


A prova!
Ontem à noite, me aborreci enquanto preparava o jantar. A cebola brunoise me provocou lágrimas, mas acho que elas já queriam mesmo escorrer. Empreguei meus sentimentos na comida. Dourar a cebola na manteiga, selar o arroz, adicionar caldo de legumes aos poucos... Esqueci de colocar sal. Got in himmel! Ainda bem que esse condimento é facilmente corrigido no fim da cocção.

É claro que a chateação não me fez bem, contudo, quem comeu meu picadinho de carne com legumes, o prato favorito do presidente em vigência, disse que estava delicioso - e estava mesmo.

Preciso emagrecer... Engordei três quilos desde o início do semestre. Tudo culpa dos biscoitos recheados, pães doces, sanduíches bufando queijo derretido, porções valorosas de molhos, cat chup e mostarda - maionese eu não aprecio muito; além de vitaminas e achocolatados, industrializados. Muita ansiedade... Chiclete a quilômetros, barras de chocolate aos bocados. Bala? Nem se fala... É sorte não terem surgido cáries, feitura do fio dental e do creme Total 12.

Acabou a farra gastronômica - de porcarias, é claro. Estou cercada de folhosas, pão preto, arroz integral, biscoitos de água e sal, frutas, iogurte magro e granola. Leite gordo? Somente escondido de mim mesma. Açúcar? Apenas sucralose ou adoçante. Apesar de parecer rígido, fico feliz.

A aula terminou mais cedo hoje, entrei no mercado. Na verdade, eu queria apenas comprar um medicamento na farmácia. Já viu estudante de gastronomia em supermercado, e com dinheiro no bolso, não comprar nada? Seria uma grande lenda. Pesquisa básica de futura cozinheira profissional, ao menos, é o que dirá meu diploma - e mais que isso: gastrônoma.

Massas e molhos. Tenho dois tipos diferentes de queijo na geladeira, lembrei. Hum... Vou cozinhar!

Penne, molho béchamel, queijo parmesão ralado na hora e mussarela. Cury? E daí, o prato é meu. E páprica picante também. Euforia... É exatamente o que sinto, estou contente.

Afogo o resquício da chateação de ontem na preparação de hoje. Corto a cebola petit petit brunoise  - atenção, isso nem existe no Brasil, seulement en Paris. Eu choro e dou risada da cara da cebola, virou farelo ao fio da minha faca do chef de dez polegadas. Passo alho no fundo da panela, meu queijo não grudará. Quem não sabe fazer molho béchamel, que consulte o Le Cordon Bleu! *

Meu prato está lindo, vocês podem ver, tirei fotografias, lógico. Vou comer satisfeita, quebrando minha dieta, mas feliz. A comida não é apenas alimento, e o comer não é só nutrir o corpo. Como quando estou triste, como quando estou feliz, como quando festejo, como quando não tenho nada pra comemorar. Comer faz bem, acalma e agita; cada qual em seu momento perfeito.

Comi meu penne ao molho de queijos, uma quantidade suficiente para me deixar bem feliz. Descansei e voltei aos iogurtes magros com granola, porque comer eleva o astral, e ter uma silhueta perfeita também.


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Le Cordon Bleu: é um livro de técnicas da clássica culinária, a "Bíblia" da cozinha. Este nome significa ao pé da letra O Cordão Azul